# O Livro Em Poucos Parágrafos Publicado em 1995, O Mundo Assombrado pelos Demônios: A Ciência como uma Vela no Escuro é uma das obras mais emblemáticas de [[Carl Sagan]] e permanece como um manifesto fundamental em defesa da racionalidade e do ceticismo. No livro, [[Carl Sagan|Sagan]] argumenta que o Pensamento científico não é apenas um conjunto de conhecimentos acadêmicos, mas uma ferramenta essencial de sobrevivência e um pilar para a manutenção da liberdade democrática. Através da metáfora da "vela no escuro", o autor explora como a ciência ilumina as sombras da superstição, da pseudociência e do pensamento dogmático que frequentemente "assombram" a cultura humana. Ao longo da obra, [[Carl Sagan|Sagan]] alerta para os perigos de uma sociedade tecnologicamente avançada que perde a capacidade de questionar criticamente as informações que recebe, tornando-se vulnerável a manipulações e à Ilusão de controle. Para combater essa tendência, ele apresenta métodos práticos para o exercício do ceticismo saudável, incluindo o famoso "kit de detecção de mentiras" projetado para identificar Falácias Lógicas e argumentos sem evidências. Em última análise, o livro é um convite à humildade intelectual e ao rigor analítico, reforçando que a busca pela verdade exige um equilíbrio delicado entre a abertura para novas ideias e o exame minucioso de cada afirmação. # Como Este Livro Me Mudou O livro **"O mundo assombrado pelos demônios"** chegou até mim por recomendação de diversos canais de divulgação científica, e a leitura confirmou sua posição como uma obra fundamental para entender a relevância do pensamento racional. Embora eu tenha ressalvas quanto à estrutura do texto, que por vezes se torna fragmentada ao misturar a argumentação de [[Carl Sagan]] com cartas e visões externas nos capítulos, o impacto da sua mensagem central é inegável. O que mais ressoou em mim foi a compreensão da ciência não como um repositório de verdades absolutas, mas como um processo contínuo de autocrítica. Entendi que a ciência é a melhor ferramenta que temos para buscar clareza em um mundo confuso, não porque ela nos entregue a "resposta correta" de imediato, mas porque possui um mecanismo robusto de correção que nos permite buscar, a todo momento, uma resposta melhor e mais próxima da realidade. Nesse sentido, o livro me proporcionou uma visão muito mais nítida sobre a importância do método. Ficou claro que o fundamental não é apenas conhecer os resultados científicos, mas dominar o processo de se fazer ciência. Estar munido de ferramentas para identificar falácias e exercer um ceticismo saudável me permite navegar pelo mundo de forma mais eficiente e menos vulnerável a manipulações. Espero que essa mentalidade, aliada à minha visão sobre tecnologia, sirva como bússola para a forma como compreendo a realidade e como pretendo influenciá-la daqui para frente. # Notas - [[Currículo de Hutchins]] - [[Pseudociência versus Ciência]] - [[Sabedoria nas limitações]] - [[Pensamento científico]] - [[Navalha de Occam]] - [[Falácia Ad Hominem]] - [[Falácia do argumento de autoridade]] - [[Falácia do argumento das consequências adversárias]] - [[Falácia do apelo à ignorância]] - [[Falácia da petição de princípio]] - [[Falácia do depois disso, logo por causa disso]] - [[Falácia da exclusão do meio termo]] - [[Falácia do argumento espantalho]] - [[Coração da ciência]] - [[Não existem perguntas imbecis]] - [[Pesquisa básica]] - [[Liberdade de expressão]] # Meus 3 Principais Destaques > [!note] Destaque 1 > O modo científico de pensar é ao mesmo tempo imaginativo e disciplinado. Isso é fundamental para o seu sucesso. A ciência nos convida a acolher os fatos, mesmo quando eles não se ajustam às nossas preconcepções. Aconselha- nos a guardar hipóteses alternativas em nossas mentes, para ver qual se adapta melhor à realidade. Impõe- nos um equilíbrio delicado entre uma abertura sem barreiras para idéias novas, por mais heréticas que sejam, e o exame cético mais rigoroso de tudo— das novas idéias e do conhecimento estabelecido. > [!note] Destaque 2 > Uma das lições mais tristes da história é a seguinte: se formos enganados por muito tempo, a nossa tendência é rejeitar qualquer evidência do logro. Já não nos interessamos em descobrir a verdade. O engano nos aprisionou. É simplesmente doloroso demais admitir, mesmo para nós mesmos, que fomos enganados. Se deixamos que um charlatão tenha poder sobre nós, quase nunca conseguimos recuperar nossa independência. > [!note] Destaque 3 > A ciência, na minha opinião, é uma ferramenta absolutamente essencial para qualquer sociedade que tenha a esperança de sobreviver bem no próximo século com seus valores fundamentais intactos— não apenas como é praticada pelos seus profissionais, mas a ciência compreendida e adotada por toda a comunidade humana. E se os cientistas não realizarem essa tarefa, quem o fará? # Todos Os Destaques ## Prefácio > [!note] Note Meus pais não eram cientistas. Não sabiam quase nada sobre ciência. Mas, ao me apresentar simultaneamente ao ceticismo e à admiração, me ensinaram as duas formas de pensar, de tão difícil convivência, centrais para o método científico. > [!note] Note Grande parte da ciencia é feita com base nIsso. > [!note] Note No currículo de Hutchins, o status dos professores não tinha quase nada a ver com a sua pesquisa; inflexivelmente— ao contrário do padrão moderno da universidade norte- americana—, os professores eram avaliados pelo seu ensino, pela sua capacidade de informar e inspirar a próxima geração. ## 1. A coisa mais preciosa > [!note] Note Enquanto rodávamos pela chuva, podia vê- lo se tornar cada vez mais soturno. Eu não estava apenas negando alguma doutrina falsa, mas uma faceta preciosa de sua vida interior. > [!note] Note O sr. “Buckley”— bom papo, inteligente, curioso— não tinha ouvido virtualmente nada sobre a ciência moderna. Ele tinha um apetite natural pelas maravilhas do Universo. Queria conhecer a ciência. O problema é que toda a ciência se perdera pelos filtros antes de chegar até ele. > [!note] Note O ceticismo não vende bem. Uma pessoa inteligente e curiosa, que se baseie inteiramente na cultura popular para se informar sobre uma questão como Atlântida, tem uma probabilidade centenas ou milhares de vezes maior de encontrar uma fábula tratada de maneira acrítica em lugar de uma avaliação sóbria e equilibrada. > [!note] Note Mas na cultura popular prevalece uma espécie de Lei de Gresham, segundo a qual a ciência ruim expulsa a boa. > [!note] Note Como podemos executar a política nacional— ou até mesmo tomar decisões inteligentes sobre nossas próprias vidas— se não compreendemos as questões subjacentes? > [!note] Note As doenças que outrora vitimavam bebês e crianças têm sido progressivamente mitigadas e curadas pela ciência— por meio da descoberta do mundo microbiano, pela compreensão de que os médicos e as parteiras devem lavar as mãos e esterilizar os seus instrumentos, pela nutrição, por medidas sanitárias e de saúde pública, pelos antibióticos, remédios, vacinas, pela descoberta da estrutura molecular do DNA, pela biologia molecular, e agora pela terapia genética. > [!note] Note A longevidade talvez seja a melhor medida da qualidade física da vida. (Se você está morto, pouco pode fazer para ser feliz.) Essa é uma dádiva preciosa da ciência à humanidade— nada menos do que o dom da vida. > [!note] Note Aproximadamente metade dos cientistas na Terra dedica parte de seu tempo de trabalho para fins militares. > [!note] Note A espada da ciência tem dois gumes. Sua força terrível impõe a todos nós, inclusive aos políticos, mas especialmente aos cientistas, uma nova responsabilidade— mais atenção às conseqüências de longo prazo da tecnologia, uma perspectiva que ultrapasse as fronteiras dos países e das gerações, um incentivo para evitar os apelos fáceis do nacionalismo e do chauvinismo. Os erros estão se tornando caros demais. > [!note] Note Evidentemente, não há retorno possível. Querendo ou não, estamos presos à ciência. O melhor é tirar o máximo proveito da situação. Quando chegarmos a compreendê- la e reconhecermos plenamente a sua beleza e o seu poder, veremos que, tanto nas questões espirituais como nas práticas, fizemos um negócio muito vantajoso para nós. > [!note] Note A pseudociência é mais fácil de ser inventada que a ciência, porque os confrontos perturbadores com a realidade— quando não podemos controlar o resultado da comparação— são evitados mais facilmente. > [!note] Note Sob o comunismo, tanto a religião como a pseudociência foram sistematicamente suprimidas— exceto a superstição da religião ideológica do Estado. > [!note] Note A ignorância jamais é socialista, tampouco a pobreza. > [!note] Note A pseudociência difere da ciência errônea. A ciência prospera com seus erros, eliminando- os um a um. Conclusões falsas são tiradas todo o tempo, mas elas constituem tentativas. > [!note] Note A pseudociência é exatamente o oposto. As hipóteses são formuladas de modo a se tornar invulneráveis a qualquer experimento que ofereça uma perspectiva de refutação, para que em princípio não possam ser invalidadas. > [!note] Note Somos bons em algumas coisas, mas não em tudo. A sabedoria está em compreender as nossas limitações. > [!note] Note É um desafio supremo para o divulgador da ciência deixar bem clara a história real e tortuosa das grandes descobertas, bem como os equívocos e, por vezes, a recusa obstinada de seus profissionais a tomar outro caminho. > [!note] Note O método da ciência, por mais enfadonho e ranzinza que pareça, é muito mais importante do que as descobertas dela. ## 2. Ciência e esperança > [!note] Note Divulgar a ciência— tentar tornar os seus métodos e descobertas acessíveis aos que não são cientistas— é o passo que se segue natural e imediatamente. > [!note] Note A ciência é uma tentativa, em grande parte bem- sucedida, de compreender o mundo, de controlar as coisas, de ter domínio sobre nós mesmos, de seguir um rumo seguro. > [!note] Note O modo científico de pensar é ao mesmo tempo imaginativo e disciplinado. Isso é fundamental para o seu sucesso. A ciência nos convida a acolher os fatos, mesmo quando eles não se ajustam às nossas preconcepções. Aconselha- nos a guardar hipóteses alternativas em nossas mentes, para ver qual se adapta melhor à realidade. Impõe- nos um equilíbrio delicado entre uma abertura sem barreiras para idéias novas, por mais heréticas que sejam, e o exame cético mais rigoroso de tudo— das novas idéias e do conhecimento estabelecido. > [!note] Note A margem de erro é uma auto- avaliação visível e disseminada da confiabilidade de nosso conhecimento. > [!note] Note A ciência é muito simples. Quando se torna complicada, em geral é porque o mundo é complicado— ou porque nós é que somos complicados. > [!note] Note Não existe nenhuma religião no planeta que não deseje ter uma capacidade comparável— precisa e repetidamente demonstrada diante de céticos convictos— de prever os acontecimentos futuros. Nenhuma outra instituição humana chega perto de seu desempenho. > [!note] Note Qual é o segredo do sucesso da ciência? Em parte, é esse mecanismo embutido de correção de erros. > [!note] Note Assim, ao se preparar para defender as suas teses, eles devem praticar um hábito de pensamento muito útil: antecipar as perguntas. > [!note] Note Entretanto, de acordo com nossa compreensão da falibilidade humana, escutando o conselho de que podemos assintoticamente nos aproximar da verdade, sem jamais alcançá- la em sua plenitude, os cientistas estão estudando condições em que a relatividade geral pode entrar em colapso. > [!note] Note O fato de que tão poucas descobertas da ciência moderna estejam prefiguradas nas Escrituras lança, a meu ver, ainda mais dúvida sobre a sua inspiração divina. Mas é claro que posso estar errado. > [!note] Note Um extraterrestre, recém- chegado à Terra— examinando o que em geral apresentamos às nossas crianças na televisão, no rádio, no cinema, nos jornais, nas revistas, nas histórias em quadrinhos e em muitos livros—, poderia facilmente concluir que fazemos questão de lhes ensinar assassinatos, estupros, crueldades, superstições, credulidade e consumismo. Continuamos a seguir esse padrão e, pelas constantes repetições, muitas das crianças acabam aprendendo essas coisas. Que tipo de sociedade não poderíamos criar se, em vez disso, lhes incutíssemos a ciência e um sentimento de esperança? ## 3. O Homem na Lua e A Face em Marte > [!note] Continuar daqui Os humanos, como outros primatas, são um bando gregário. Gostamos da companhia uns dos outros. > [!note] Note Mesmo cientistas profissionais— inclusive astrônomos famosos que fizeram outras descobertas já confirmadas e agora justamente celebradas— podem cometer erros graves, até profundos, de reconhecimento de padrão. Sobretudo quando as implicações do que pensamos estar vendo parecem profundas, podemos não exercer a autodisciplina e a autocrítica adequadas. > [!note] Note Se examinamos 100 mil fotos, não é surpreendente encontrar de vez em quando algo parecido com um rosto. Com nossos cérebros preparados para isso desde a primeira infância, seria surpreendente que não achássemos um aqui e ali. > [!note] Note vem à mente o impacto do cometa Shoemaker- Levy sobre Júpiter em julho de 1994— sabe que os cientistas tendem a ser exaltados e incontidos. Têm uma compulsão incontrolável de divulgar os novos dados. Só por um acordo prévio, e não ex post facto, é que conseguem guardar segredo militar. Rejeito a noção de que a ciência seja sigilosa por natureza. Sua cultura e etos são, e por razões muito boas, coletivos, cooperativos e comunicativos. > [!note] Note Ao contrário do fenômeno dos UFOs, temos nesse caso a oportunidade de um experimento definitivo. Esse tipo de hipótese é falsificável, uma propriedade que a insere na arena científica. > [!note] Note Histórias desse tipo tingem o assunto de exagero apocalíptico, contribuindo com sua extravagância para que o público tenha dificuldade em distinguir os perigos reais da ficção sensacionalista, ou até mesmo obstruindo nossa capacidade de tomar medidas de precaução para mitigar o perigo. > [!note] Note Essas reportagens persistem e proliferam porque vendem. E elas vendem, acho eu, porque muitos de nós desejam intensamente abandonar as nossas vidas monótonas, reacender aquele sentimento de espanto que lembramos da infância, e também, no caso de algumas das histórias, poder acreditar real e verdadeiramente— em Alguém mais velho, mais inteligente e mais sábio que cuida de nós. > [!note] Note Mas nós, humanos, temos um talento para nos enganar. O ceticismo deve ser um componente do conjunto de ferramentas do explorador, senão perderemos o rumo. ## 4. Alienígenas > [!note] Note comecei a entender um pouco como a ciência funciona, os segredos de seu grande sucesso, como os padrões de evidência devem ser rigorosos para realmente sabermos se algo é verdadeiro, quantos pontos de partida falsos e becos sem saída já atormentaram o pensamento humano, como os nossos vieses podem colorir a interpretação da evidência, e quantas vezes sistemas de crenças mantidos por muitas pessoas e apoiados pelas hierarquias políticas, religiosas e acadêmicas revelam estar não apenas um pouquinho errados, mas grotescamente equivocados. > [!note] Note Quanto mais desejamos que seja verdade, mais cuidadosos temos que ser. > [!note] Note Desde então, tive a sorte de estar envolvido com o envio de espaçonaves a outros planetas em busca de vida, e com a escuta de sinais de rádio de civilizações alienígenas, caso existam, em planetas de estrelas distantes. Tivemos alguns momentos tantalizantes. Mas se o suposto sinal não está à mão para que todo cético ranzinza possa examiná- lo, não podemos chamá- lo de evidência de vida extraterrestre— por mais fascinante que nos pareça a idéia. > [!note] Note Os demônios vendem; os fraudadores são aborrecidos e de mau gosto. > [!note] Note O que a ciência exige é tão- somente que façamos uso dos mesmos níveis de ceticismo que empregamos ao comprar um carro usado ou ao julgar a qualidade dos analgésicos ou da cerveja pelos seus comerciais na televisão. > [!note] Note Aqueles que têm alguma coisa para vender, aqueles que desejam influenciar a opinião pública, aqueles que estão no poder, diria um cético, têm um interesse pessoal em desencorajar o ceticismo. ## 5. Simulações e sigilo > [!note] Note As investigações desleixadas do Bluebook tinham pouco valor científico, mas serviam à importante finalidade burocrática de convencer grande parte do público de que a Força Aérea estava envolvida na questão; e de que talvez os relatos sobre UFOs nada significassem. > [!note] Note Que eu saiba, nunca houve uma experiência de controle sistemática e intencional— em que balões de alta altitude fossem secretamente lançados e rastreados, e em que se anotassem as notificações de UFOs feitas por observadores que os teriam avistado a olho nu ou pelo radar. > [!note] Note Poderia ser uma boa opcao de avaliacao > [!note] Note Diversas lembranças se conservaram em banho- maria durante anos, sendo refrescadas pela oportunidade de um pouco de fama e fortuna. > [!note] Note A única maneira segura de testar as defesas do adversário é fazer um avião ultrapassar as fronteiras do território inimigo e verificar quanto tempo eles levam para perceber a violação. Os Estados Unidos faziam essa operação rotineiramente para testar as defesas aéreas soviéticas. > [!note] Note Com algumas exceções, o sigilo é profundamente incompatível com a democracia e com a ciência. > [!note] Note Há muitos casos na história humana de natureza semelhante— em que de repente aparece um documento de procedência dúbia, trazendo informações de grande importância que confirmam vigorosamente as idéias dos que o descobriram. > [!note] Note O Departamento de Defesa, como os ministérios semelhantes em todas as outras nações, prospera devido aos inimigos, reais ou imaginados. > [!note] Note É impressionante como as emoções podem se acirrar sobre uma questão a respeito da qual conhecemos de fato muito pouco. ## 6. Alucinações > [!note] Note Qual é o fio comum que une todos esses anúncios? É certamente a expectativa de uma credulidade ilimitada por parte do público. > [!note] Note Será possível que os extraterrestres só conheçam o que conhecem aqueles que relatam a sua presença? > [!note] Note Um conceito mais relacionado com a mente é o de uma atividade contínua de processamento de informações (uma espécie de “fluxo pré- consciente”), influenciada ininterruptamente tanto pelas forças conscientes como pelas inconscientes, que constitui o suprimento potencial do conteúdo dos sonhos. O sonho é uma experiência durante a qual, por alguns minutos, o indivíduo tem alguma consciência do fluxo de dados sendo processado. > [!note] Note Devemos imaginar dois grupos diferentes de crianças— as que vêem seres terrestres imaginários e as que vêem extraterrestres genuínos? Não será mais razoável supor que ambos os grupos estejam vendo a mesma coisa ou experimentando alucinações parecidas? > [!note] Note principal ressalva que se pode fazer é: por que tantas pessoas hoje em dia relatam esse conjunto específico de alucinações? Por que pequenos seres sombrios, discos voadores e experimentação sexual? ## 7. O mundo assombrado pelos demônios > [!note] Note Na tradição talmúdica, o súcubo arquetípico era Lilith, a quem Deus criou do barro junto com Adão. Ela foi expulsa do Éden por insubordinação— não a Deus, mas a Adão. Desde então, ela passa as suas noites seduzindo os descendentes de Adão. > [!note] Note Outras pessoas, que não viveram pessoalmente a experiência, acham- na perturbadora e de certo modo familiar. Passam a história adiante. Logo ela adquire vida própria, inspira outros a tentar compreender as suas próprias visões e alucinações, e entra no reino do folclore, do mito e da lenda. > [!note] Note Quando é do conhecimento de todos que os deuses descem à Terra, nós talvez tenhamos alucinações com deuses; quando todos nós estamos familiarizados com demônios, aparecem os íncubos e os súcubos; quando os duendes são aceitos por toda parte, vemos duendes; numa era de espiritualismo, encontramos espíritos; e quando os antigos mitos se enfraquecem e começamos a pensar que os seres extraterrestres são plausíveis, é para eles que tendem as nossas imagens hipnagógicas. > [!note] Note Nem um único ser apresentado em todas essas histórias é tão espantoso quanto seria uma cacatua para quem nunca tivesse contemplado um pássaro. > [!note] Note Qualquer livro didático de protozoologia, bacteriologia ou micologia contém maravilhas que eclipsam as mais exóticas descrições das vítimas dos raptos por extraterrestres. Os que acreditam nesses relatos tomam os elementos comuns em suas histórias como sinais de verossimilhança, e não como prova de que as histórias foram construídas a partir de uma cultura e biologia partilhadas. ## 8. Sobre a distinção entre visões verdadeiras e falsas > [!note] Note Infelizmente— e, para algumas pessoas, incrivelmente—, a distinção entre a imaginação e a memória é com freqüência pouco nítida. > [!note] Note Quanto maior o intervalo entre o momento de ver o filme e o de receber a informação falsa, mais as pessoas permitem que suas lembranças sejam adulteradas. > [!note] Note Aquilo de que realmente lembramos talvez seja um conjunto de fragmentos de memória alinhavados sobre um tecido de nossa própria invenção. Se costuramos com bastante inteligência, criamos para nós mesmos uma história memorável, fácil de recordar. Os fragmentos em si, livres das associações, são mais difíceis de recuperar. > [!note] Note Ao listar a razão para as crenças errôneas, Alfonso estabelece um continuum que vai da seita, opinião, fantasia e sonho até a alucinação. > [!note] Note As lendas influenciavam as aparições e vice- versa. > [!note] Note Estranhamente, a maioria são simples sonhos, reconhecidos como tais, e afirma- se que as assim chamadas visões só diferem dos sonhos “porque nós as experimentamos enquanto estamos acordados”. > [!note] Note E se em algum lugar e de algum modo vamos ter de traçar a linha divisória e concluir que alguns sonhos são inventados pelo sonhador, por que não todos? > [!note] Note Seja qual for a razão para alguém trilhar esse caminho, deve ser muito mais satisfatório convencer os outros de que seres superiores o escolheram para seus enigmáticos propósitos do que persuadi- los de que, por um simples capricho do acaso, havia uma seringa hipodérmica no seu refrigerante. ## 9. Terapia > [!note] Note Em seu livro, Abductions, Mack propõe de forma clara a doutrina muito perigosa de que “a força ou a intensidade com que se sente alguma coisa” é uma indicação para sabermos se é verdade. > [!note] Note O que uma inteligência mais crítica poderia reconhecer como alucinação ou sonho, uma inteligência mais crédula interpreta como o vislumbre de uma realidade externa impalpável, mas profunda. > [!note] Note Nos Estados Unidos, pelo menos uma em dez mulheres foi estuprada, quase dois terços antes dos dezoito anos. > [!note] Note Essa informação é chocante > [!note] Note Há um século, Sigmund Freud introduziu o conceito de repressão, o fato de esquecermos certos acontecimentos para evitar intensa dor psíquica, como um mecanismo de luta essencial para a saúde mental. > [!note] Note Se existe a possibilidade de repressão e subseqüente recordação de lembranças horríveis, isso requer talvez duas condições: (1) que o abuso tenha realmente acontecido; (2) que a vítima tenha sido obrigada a fingir por longo tempo que ele jamais ocorreu. > [!note] Note Por um lado, descartar insensivelmente as acusações de abusos sexuais horripilantes pode ser uma cruel injustiça. Por outro, mexer com as lembranças das pessoas, incutir histórias falsas de abuso infantil, destroçar famílias intactas e até mandar pais inocentes para a prisão também é uma cruel injustiça. O ceticismo é essencial em ambos os lados. > [!note] Note histeria. O termo, lamentavelmente, passou a ser usado de forma tão ilimitada que nossos contemporâneos, em sua duvidosa sabedoria […] não só o abandonaram, como perderam de vista os fenômenos que ele representava: altos níveis de sugestionabilidade, capacidade imaginativa, sensibilidade a dicas e expectativas, e o elemento de contágio […]. Um grande número de clínicos praticantes parece reconhecer muito pouco de tudo isso. > [!note] Note É mais provável, numa proporção de aproximadamente dois para um, que os provedores de saúde mental na América do Norte sejam assistentes sociais do que médicos psiquiatras ou psicólogos. > [!note] Note Será Que isso ainda se mantém hoje? > [!note] Note Um típico terapeuta de UFO encontra pacientes de três maneiras: eles lhe escrevem cartas, enviadas a um endereço fornecido na lombada de seus livros; eles lhe são recomendados por outros terapeutas (principalmente por aqueles que também são especialistas em raptos por alienígenas); ou eles o procuram depois de uma palestra. Eu me pergunto se algum paciente bate à sua porta ignorando totalmente os relatos populares de seqüestro e os métodos e as opiniões do terapeuta. Antes de trocar qualquer palavra, eles já sabem muita coisa um do outro. > [!note] Note Às vezes, ao “adormecer”, temos a sensação de estar caindo de uma altura, e nossos membros se movem por si. O reflexo do sobressalto, assim é chamado. ## 10. O dragão na minha garagem > [!note] Note Ora, qual é a diferença entre um dragão invisível, incorpóreo, flutuante, que cospe fogo atérmico, e um dragão inexistente? Se não há como refutar a minha afirmação, se nenhum experimento concebível vale contra ela, o que significa dizer que o meu dragão existe? A sua incapacidade de invalidar a minha hipótese não é absolutamente a mesma coisa que provar a veracidade dela. > [!note] Note De novo, a única abordagem sensata é rejeitar em princípio a hipótese do dragão, manter- se receptivo a futuros dados físicos e perguntar- se qual poderia ser a razão para tantas pessoas aparentemente normais e sensatas partilharem a mesma delusão estranha. > [!note] Note A rejeicao com abertura para mudancas e uma base importante da ciencia > [!note] Note Não se deve declarar que foram encontrados alienígenas, quando a única evidência é um sinal enigmático que não se repete. > [!note] Note Essas “explicações” podem explicar qualquer coisa e, por isso, não explicam realmente nada. > [!note] Note Ele quer as duas coisas— a linguagem e a credibilidade da ciência, mas sem ficar limitado pelo seu método e suas regras. Parece não compreender que a credibilidade é conseqüência do método. > [!note] Note Manter a mente aberta é uma virtude— mas, como o engenheiro espacial James Oberg disse certa vez, ela não pode ficar tão aberta a ponto de o cérebro cair para fora. ## 12. A arte refinada de detectar mentiras > [!note] Note cultura comercial está cheia de informações errôneas e subterfúgios semelhantes à custa do consumidor. Não se devem fazer perguntas. Não pensem. Comprem. > [!note] Note E em grande parte isso tamvem deveria ser um problem a ser analisado em profundidade. > [!note] Note O pensamento cético se resume no meio de construir e compreender um argumento racional e— o que é especialmente importante— de reconhecer um argumento falacioso ou fraudulento. > [!note] Note A Navalha de Occam. Essa maneira prática e conveniente de proceder nos incita a escolher a mais simples dentre duas hipóteses que explicam os dados com igual eficiência. > [!note] Note ad hominem— expressão latina que significa “ao homem”, quando atacamos o argumentador e não o argumento (por exemplo: A reverenda dra. Smith é uma conhecida fundamentalista bíblica, por isso não precisamos levar a sério suas objeções à evolução); > [!note] Note argumento de autoridade (por exemplo: O presidente Richard Nixon deve ser reeleito porque ele tem um plano secreto para pôr fim à guerra no Sudeste da Ásia— mas, como era secreto, o eleitorado não tinha meios de avaliar os méritos do plano; o argumento se reduzia a confiar em Nixon porque ele era o presidente: um erro, como se veio a saber); > [!note] Note argumento das conseqüências adversas (por exemplo: > [!note] Note apelo à ignorância— a afirmação de que qualquer coisa que não provou ser falsa deve ser verdade, e vice- versa > [!note] Note alegação especial, freqüentemente para salvar uma proposição em profunda dificuldade teórica > [!note] Note petição de princípio, também chamada de supor a resposta > [!note] Note seleção das observações, também chamada de enumeração das circunstâncias favoráveis, ou, segundo a descrição do filósofo Francis Bacon, contar os acertos e esquecer os fracassos*** > [!note] Note estatística dos números pequenos— falácia aparentada com a seleção das observações > [!note] Note compreensão errônea da natureza da estatística > [!note] Note incoerência > [!note] Note non sequitur— expressão latina que significa “não se segue” > [!note] Note post hoc, ergo propter hoc— expressão latina que significa “aconteceu após um fato, logo foi por ele causado” > [!note] Note pergunta sem sentido > [!note] Note exclusão do meio- termo, ou dicotomia falsa— considerando apenas os dois extremos num continuum de possibilidades intermediárias > [!note] Note curto prazo versus longo prazo— um subconjunto da exclusão do meio- termo, mas tão importante que o separei para lhe dar atenção especial > [!note] Note declive escorregadio, relacionado à exclusão do meio- termo > [!note] Note confusão de correlação e causa > [!note] Note espantalho— caricaturar uma posição para tornar mais fácil o ataque > [!note] Note evidência suprimida, ou meia verdade > [!note] Note palavras equívocas > [!note] Note Palavras usadas fkra de contexto ou com sentidos duplos ## 13. Obcecado pela realidade > [!note] Note As pessoas que se conhecem muito bem, que vivem juntas, que estão acostumadas com a intensidade dos sentimentos, com as associações e com os estilos de pensar umas das outras, podem freqüentemente prever o que o parceiro vai dizer. Isso nada mais é do que os cinco sentidos habituais mais empatia, sensibilidade e inteligência humana em operação. Pode parecer extra- sensorial, mas não é de modo algum o que se quer dizer com a palavra “telepatia”. > [!note] Note Um placebo só funciona se o paciente acredita que é um remédio eficaz. Dentro de limites restritos, a esperança, ao que parece, pode ser transformada em bioquímica. > [!note] Note Não causa surpresa que recorrer a um estado de espírito chamado fé possa aliviar sintomas causados, pelo menos em parte, por outro estado de espírito que talvez não seja muito diferente. > [!note] Note Alvarez e Randi provaram que não é preciso grande coisa para brincar com nossas crenças, que somos prontamente influenciados, que é fácil enganar o público quando as pessoas estão solitárias e famintas de algo em que acreditar. > [!note] Note Uma das lições mais tristes da história é a seguinte: se formos enganados por muito tempo, a nossa tendência é rejeitar qualquer evidência do logro. Já não nos interessamos em descobrir a verdade. O engano nos aprisionou. É simplesmente doloroso demais admitir, mesmo para nós mesmos, que fomos enganados. Se deixamos que um charlatão tenha poder sobre nós, quase nunca conseguimos recuperar nossa independência. > [!note] Note Se às vezes é mais fácil rejeitar uma evidência forte do que admitir que estávamos errados, essa é outra informação sobre nós mesmos que vale a pena conhecer. ## 14. A anticiência > [!note] Note Mas há, obviamente, uma diferença importante entre um sistema aberto que convida todo mundo a se aproximar, estudar os seus métodos e sugerir aperfeiçoamentos, e outro que considera o questionamento de suas credenciais um sinal de maldade no coração, como a que o [cardeal] Newman atribuiu àqueles que questionaram a infalibilidade da Bíblia > [!note] Note E essa me parece ser uma distincao importante entre ciencia e religiao > [!note] Note Certos tipos de conhecimento popular são válidos e inestimáveis. Outros são, quando muito, metáforas e codificadores. > [!note] Note A história é em geral escrita pelos vencedores para justificar as suas ações, para despertar o fervor patriótico e para eliminar as reivindicações legítimas dos vencidos. > [!note] Note Entretanto, quem negaria a existência de seqüências verdadeiras de eventos históricos, com linhas causais reais, mesmo que nossa capacidade de reconstruí- las em todo o seu entrelaçamento seja limitada, mesmo que o sinal se perca num oceano de ruído auto- elogioso? O perigo da subjetividade e do preconceito tem sido perceptível desde o começo da história. > [!note] Note a passos lentos, e melhorando o autoconhecimento, a nossa compreensão dos eventos históricos se aperfeiçoa. > [!note] Note Os cientistas cometem erros. Por isso, cabe ao cientista reconhecer as nossas fraquezas, examinar o maior número de opiniões, ser impiedosamente autocrítico. A ciência é um empreendimento coletivo com um mecanismo de correção de erro que freqüentemente funciona sem embaraços. > [!note] Note Ela tem uma esmagadora vantagem sobre a história, > [!note] Note Nas ciências históricas > [!note] Note Parece que ha parte dentro e parte fora da historia que pertence a ciencia > [!note] Note Talvez fosse útil que os cientistas listassem de vez em quando alguns de seus erros. Isso poderia ter o papel instrutivo de iluminar e desmitificar o processo da ciência, e de esclarecer os cientistas mais jovens. > [!note] Note Cada cientista tem um estilo diferente de especular, e alguns são muito mais cautelosos que outros. > [!note] Note Thomas Jefferson e George Washington eram proprietários de escravos; Albert Einstein e Mahatma Gandhi foram maridos e pais imperfeitos. A lista continua indefinidamente. Somos criaturas de nosso tempo, todos cheios de falhas. > [!note] Note Quem dentre nós é bastante sábio para saber quais as informações e idéias que podemos descartar sem problemas e quais as que serão necessárias daqui a dez, cem ou mil anos? > [!note] Note A ciência é diferente de muitos outros empreendimentos humanos— evidentemente não pelo fato de seus profissionais sofrerem influência da cultura em que se criaram, nem pelo fato de ora estarem certos, ora errados (o que é comum a toda atividade humana), mas pela sua paixão de formular hipóteses testáveis, pela sua busca de experimentos definitivos que confirmem ou neguem as idéias, pelo vigor de seu debate substantivo e pela sua disposição a abandonar as idéias que foram consideradas deficientes. ## 15. O sono de Newton > [!note] Note Pelo menos alguns dos mistérios de nossos dias serão desvendados pelos nossos descendentes. > [!note] Note Dessa forma, as sociedades que ensinam a satisfação com o que temos na vida, na expectativa de uma recompensa post mortem, tendem a se vacinar contra a revolução. > [!note] Note solipsismo, a afirmar que a única realidade são os seus próprios pensamentos. > [!note] Note O espantoso é que matemática semelhante se aplique tão bem tanto aos planetas como aos relógios. Não precisava ser assim. Não impusemos essa característica ao Universo. É assim que ele funciona. Se isso é reducionismo, que seja. > [!note] Note Os biólogos moleculares estão registrando laboriosamente a seqüência dos 3 bilhões de nucleotídeos que especificam como se constrói um ser humano. Em uma ou duas décadas, terão terminado o trabalho. (Se os benefícios vão, em última análise, superar os riscos, não parece absolutamente certo.) > [!note] Note Por sorte, vivemos num Universo em que muita coisa pode ser “reduzida” a um pequeno número de leis da Natureza relativamente simples. Caso contrário, talvez não tivéssemos a capacidade intelectual e a inteligência para compreender o mundo. > [!note] Note Em todos esses casos, religiosos ou seculares, a minha sugestão é que estamos em melhor situação se conhecemos a maior aproximação possível da verdade— e se conservamos uma percepção perspicaz dos erros que nosso grupo de interesse ou sistema de crença cometeu no passado. Em todos os casos, são exageradas as supostas conseqüências terríveis de a verdade ser conhecida. E, mais uma vez, não somos bastante sábios para saber que mentiras ou até que nuanças dos fatos podem servir competentemente a um propósito social mais elevado— sobretudo a longo prazo. ## 16. Quando os cientistas conhecem o pecado > [!note] Note Com isso não quero dizer que a ciência não tenha responsabilidade pelo mau emprego de suas descobertas. Ela tem uma responsabilidade profunda, e quanto mais poderosos os seus produtos maior a sua responsabilidade. > [!note] Note Quando a pesquisa científica dá poderes formidáveis, de fato terríveis, a nações e a líderes políticos falíveis, surgem muitos perigos: um deles é que alguns dos cientistas envolvidos podem conservar apenas uma aparência superficial de objetividade. > [!note] Note Considerem- se os aforismos. A pressa é inimiga da perfeição; mas um passo dado a tempo vale por nove. > [!note] Note Talvez não sejam os cientistas, mas as pessoas que são moralmente ambíguas. > [!note] Note mas, se devemos cometer erros, que eles favoreçam, em vista dos riscos, a segurança. > [!note] Note O preço da ambigüidade moral é agora demasiado elevado. Por essa razão— e não por causa de sua abordagem do conhecimento—, a responsabilidade ética dos cientistas também deve ser elevada, extraordinariamente elevada, ineditamente elevada. Gostaria que os programas científicos de pós- graduação examinassem explícita e sistematicamente essas questões com os cientistas e engenheiros novatos. ## 17. O casamento do ceticismo e da admiração > [!note] Note Ainda assim, uma vida pode depender do nosso testemunho. Jurar que vamos dizer a verdade, toda a verdade, e nada mais que a verdade, dentro dos limites de nossas capacidades, é um pedido justo. Porém, sem a expressão restritiva, está simplesmente fora de nosso alcance. > [!note] Note Como em muitos textos pós- modernos, tudo é uma questão de saber qual a intensidade dos sentimentos das pessoas e quais os seus vieses. > [!note] Note Como tenho tentado enfatizar, no coração da ciência existe um equilíbrio essencial entre duas atitudes aparentemente contraditórias— uma abertura para novas idéias, por mais bizarras ou contrárias à intuição, e o exame cético mais implacável de todas as idéias, antigas e novas. > [!note] Note Tanto o ceticismo como a admiração são habilidades que precisam de aperfeiçoamento e prática. ## 18. O vento levanta poeira > [!note] Note O desenvolvimento do pensamento objetivo pelos gregos parece ter exigido certo número de fatores culturais específicos. O primeiro foi a assembléia, onde os homens aprenderam pela primeira vez a persuadir uns aos outros por meio do debate racional. O segundo foi uma economia marítima que impedia o isolamento e o provincianismo. O terceiro foi a existência de um mundo bem amplo de língua grega em que os viajantes e os eruditos podiam perambular. O quarto foi a existência de uma classe mercantil independente que podia contratar os seus próprios professores. O quinto foi a Ilíada e a Odisséia, obras- primas da literatura que são, em si mesmas, o epítome do pensamento racional liberal. O sexto foi uma religião literária que não era dominada por padres. E o sétimo foi a persistência desses fatores durante mil anos. > [!note] Note Cada sociedade deve decidir em que ponto no continuum entre abertura e rigidez reside a segurança. > [!note] Note Libertar- se da superstição não basta para o crescimento da ciência. Deve- se também ter a idéia de investigar a Natureza, fazer experimentos. > [!note] Note Para mim, todas essas formidáveis habilidades argumentativas de rastreamento são ciência em ação. > [!note] Note O que a Jônia e a antiga Grécia proporcionaram não foram tanto as invenções, a tecnologia ou a engenharia, mas a idéia da investigação sistemática, a noção de que o mundo é regido por leis da Natureza, e não por deuses cheios de caprichos. ## 19. Não existem perguntas imbecis > [!note] Note Embora haja muitas maneiras de fabricar ferramentas de pedra, o extraordinário é que em determinada região, durante longos intervalos de tempo, elas foram feitas da mesma maneira— o que significa que devia haver instituições educacionais há centenas de milhares de anos, mesmo que fossem basicamente um sistema de aprendizado. > [!note] Note Num mundo em transição, tanto os estudantes como os professores precisam ensinar a si mesmos uma habilidade essencial— precisam aprender a aprender. > [!note] Note Por que os adultos têm de fingir onisciência diante de crianças de seis anos é algo que nunca vou compreender. > [!note] Note Há perguntas ingênuas, perguntas enfadonhas, perguntas mal formuladas, perguntas propostas depois de uma inadequada autocrítica. Mas toda pergunta é um grito para compreender o mundo.** Não existem perguntas imbecis. > [!note] Note Há uma percepção disseminada de que a ciência é “demasiado difícil” para as pessoas comuns. > [!note] Note Sera mesmo ainda hoje? > [!note] Note A ignorância se alimenta de ignorância. A fobia da ciência é contagiosa. > [!note] Note A ciência é um assombro e um prazer. > [!note] Note Saber e explicar, dizem, não é a mesma coisa. Qual é o segredo? Há apenas um, na minha opinião: não falar para o público em geral como falaríamos com nossos colegas do ramo. > [!note] Note Mas— à parte o aprendizado ou aulas e seminários bem estruturados— a melhor maneira de divulgar a ciência é por meio de livros didáticos, livros populares, CD- ROMs e toca- discos a laser. Pode- se ruminar a informação, seguir o próprio ritmo, rever as partes mais difíceis, comparar os textos, compreender em profundidade. Mas isso tem de ser feito de forma correta, e, sobretudo nas escolas, não é o que acontece. Ali, como diz o filósofo John Passmore, a ciência é freqüentemente apresentada > [!note] Note A ciência, na minha opinião, é uma ferramenta absolutamente essencial para qualquer sociedade que tenha a esperança de sobreviver bem no próximo século com seus valores fundamentais intactos— não apenas como é praticada pelos seus profissionais, mas a ciência compreendida e adotada por toda a comunidade humana. E se os cientistas não realizarem essa tarefa, quem o fará? ## 20. A casa em fogo > [!note] Note Essas exposições não substituem a instrução na escola ou em casa, mas despertam o interesse e emocionam. > [!note] Note E talvez o principal objetivo seja esse mesmo, deslumbrar o espectador. ## 21. O caminho para a liberdade > [!note] Note Há sempre crianças— como Frederick Bailey— que vencem as dificuldades. Muitíssimas não conseguem. > [!note] Note Alfuns poucos casos de sucesso nao devem servir para julgar todos os casos de fracasso > [!note] Note Quando não há comida suficiente, o corpo tem de decidir como vai investir os alimentos limitados que recebe. A sobrevivência vem em primeiro lugar. O crescimento vem em segundo. Nessa triagem nutritiva, o corpo parece obrigado a classificar o aprendizado em último lugar. Melhor ser estúpido e vivo, segundo seu julgamento, do que inteligente e morto. > [!note] Note Os tiranos e os autocratas sempre compreenderam que a capacidade de ler, o conhecimento, os livros e os jornais são potencialmente perigosos. Podem insuflar idéias independentes e até rebeldes nas cabeças de seus súditos. > [!note] Note As rodas dentadas da pobreza, ignorância, falta de esperança e baixa auto- estima se engrenam para criar um tipo de máquina do fracasso perpétuo que esmigalha os sonhos de geração a geração. Nós todos pagamos o preço de mantê- la funcionando. O analfabetismo é a sua cavilha. ## 22. Viciados em significados > [!note] Note Se me é permitido prestar atenção a alguns resultados e ignorar os outros, serei sempre capaz de “provar” que há algo de excepcional na minha fase de sorte. Essa é uma das falácias no kit de detecção de mentiras, a enumeração de circunstâncias favoráveis. > [!note] Note Se há fases de sorte além do que se esperaria estatisticamente, elas são difíceis de encontrar. > [!note] Note Mas de algum modo isso não satisfaz. Não parece verdade. Perguntem aos jogadores, aos treinadores ou aos fãs. Nós procuramos significado até em números aleatórios. Somos viciados em significados. ## 23. Maxwell e os nerds > [!note] Note Exigir grandes invenções práticas e, ao mesmo tempo, desencorajar a pesquisa movida pela curiosidade seria espetacularmente contraproducente. > [!note] Note Provavelmente, algumas invenções úteis emergiriam de todo esse empenho— “produtos secundários”. Eles sempre aparecem, quando se investem imensas somas em tecnologia. > [!note] Note Já não vivemos numa época de otimismo desenfreado sobre os benefícios da ciência e da tecnologia. Compreendemos que há um lado desfavorável. > [!note] Note Isso parece ser cada vez mais real. > [!note] Note Sabemos agora que não há fluido magnético especial, e que todo magnetismo— inclusive a energia que reside numa barra ou ferradura imantada— se deve à eletricidade em movimento. > [!note] Note O fluxo elétrico variando no tempo de certa forma se propagara pelo espaço e gerara magnetismo, e o magnetismo variando no tempo de certa forma se propagara pelo espaço e gerara eletricidade. Isso foi chamado de “indução”, e era profundamente misterioso, quase mágico. > [!note] Note Um vetor, escrito em negrito, é qualquer quantidade que tenha magnitude e direção. > [!note] Note A primeira das quatro equações de Maxwell estabelece como um campo elétrico criado por cargas elétricas (elétrons, por exemplo) varia com a distância (torna- se mais fraco, quanto mais nos afastamos dele). Mas quanto maior a densidade de carga (quanto mais elétrons, por exemplo, num determinado espaço) mais forte é o campo. > [!note] Note segunda equação nos informa que não há nenhuma declaração comparável no magnetismo, porque as “cargas” magnéticas (ou “unipolares” magnéticos) não existem: serre- se um ímã ao meio e não se obterá um pólo “norte” isolado e um pólo “sul” isolado; cada pedaço terá os seus próprios pólos “norte” e “sul”. > [!note] Note A terceira equação nos diz como um campo magnético variável induz um campo elétrico. > [!note] Note A quarta descreve o inverso— como um campo elétrico variável (ou uma corrente elétrica) induz um campo magnético. > [!note] Note Em suma, as quatro equações de Maxwell no vácuo afirmam: (1) não há cargas elétricas no vácuo; (2) não há unipolares magnéticos no vácuo; (3) um campo magnético variável gera um campo elétrico; e (4) vice- versa. > [!note] Note Como a luz agora parecia se comportar como ondas e derivar de campos elétricos e magnéticos, Maxwell chamou- a de eletromagnética. > [!note] Note A palavra “éter” ainda é usada de forma vaga— em inglês aparece principalmente no adjetivo “etéreo”, o que reside no éter. Tem as mesmas conotações do termo mais moderno “viver no ar” ou “esquisito”. Quando, nos primeiros tempos do rádio, eles diziam “No ar”, era o éter o que tinham em mente. (A expressão russa é bem literalmente “no éter”, v efir.) > [!note] Note A onda viaja por si mesma. O campo elétrico variável gera um campo magnético; o campo magnético variável gera um campo elétrico. Eles se sustentam um ao outro— por seus próprios esforços. > [!note] Note O que significa ter contato físico? O que acontece exatamente quando alguém pega uma faca, empurra um balanço ou provoca uma onda numa cama de água pressionando- a de vez em quando? Quando investigamos profundamente, descobrimos que não há contato físico. Em seu lugar, as cargas elétricas na mão influenciam as cargas elétricas na faca, no balanço ou na cama de água, e vice- versa. Apesar da experiência cotidiana e do senso comum, mesmo nesses casos há apenas a interação de campos elétricos. Nada toca em nada. > [!note] Note Que coisa complicada é o campo elétrico no espaço ao nosso redor! > [!note] Note A pesquisa básica é o campo em que os cientistas têm a liberdade de satisfazer a sua curiosidade e interrogar a Natureza, sem ter em vista nenhum objetivo prático de curto prazo, mas buscando o conhecimento pelo conhecimento. Eles têm, é claro, um interesse próprio na pesquisa básica. É o que gostam de fazer, em muitos casos é a razão de terem se tornado cientistas. Mas é do interesse da sociedade apoiar essa pesquisa. É assim que muitas vezes são feitas as grandes descobertas que beneficiam a humanidade. Se uns poucos projetos científicos grandiosos e ambiciosos são um investimento melhor do que um número maior de pequenos programas, é uma questão que vale a pena examinar. > [!note] Note Essas descobertas e milhares de outras que honram e caracterizam o nosso tempo, e a algumas das quais devemos nossas vidas, foram feitas em última análise por cientistas que tiveram a oportunidade de explorar o que, em sua opinião, sob o escrutínio de seus pares, eram questões básicas na Natureza. > [!note] Note Uma característica necessária da pesquisa básica é que sua aplicação reside no futuro— às vezes décadas ou até séculos adiante. > [!note] Note Cortar a ciência fundamental, movida pela curiosidade, é comer a semente do trigo. Talvez tenhamos um pouco mais para nos alimentar no próximo inverno, mas o que plantaremos para que nós e nossos filhos tenhamos o suficiente para atravessar os invernos futuros? ## 24. Ciência e bruxaria > [!note] Note A Lei da Sedição tornava ilegal publicar críticas “falsas ou maliciosas” ao governo ou inspirar oposição a qualquer um de seus atos. > [!note] Note Parece haver semelhanças com a situação atual dos EUA > [!note] Note Aqueles que procuram o poder a qualquer preço detectam uma fraqueza social, um medo que podem usar para chegar ao cargo desejado. Podem ser diferenças étnicas, como naquela época, talvez quantidades diferentes de melanina na pele; ou talvez seja o uso de drogas, o crime violento, a crise econômica, a educação religiosa ou a “profanação” da bandeira (literalmente, torná- la profana). Qualquer que seja o problema, o remédio rápido é suprimir um pouco de liberdade da Declaração de Direitos. > [!note] Note pensem na implicação de que uma melhor compreensão pública da superstição e do ceticismo poderia ter interrompido todo o curso da causalidade. > [!note] Note Há coisas que o ceticismo tem capacidade de afastar rapidamente e que reduziriam impactos futuros. > [!note] Note É possível— com o controle absoluto sobre a mídia e a polícia— reescrever as memórias de milhões de pessoas, se temos o espaço de uma geração para realizar a tarefa. Quase sempre, isso é feito para aperfeiçoar o controle que o poderoso tem sobre o poder, ou para servir ao narcisismo, à megalomania ou à paranóia dos líderes nacionais. > [!note] Note É próprio do ceticismo ser perigoso. Ele desafia as instituições estabelecidas. Se ensinamos a todo mundo, inclusive a estudantes do segundo grau, os hábitos do pensamento cético, eles provavelmente não vão restringir o seu ceticismo aos UFOs, aos comerciais de aspirina e às mentes canalizadas de 35 mil anos de idade. Talvez comecem a fazer perguntas incômodas sobre as instituições econômicas, sociais, políticas ou religiosas. Talvez desafiem as opiniões de quem está no poder. Então o que aconteceria conosco? > [!note] Note A própria ciência é uma língua transnacional. Os cientistas têm naturalmente uma atitude cosmopolita e são mais inclinados a não se deixar enganar pelas tentativas de dividir a família humana em numerosas facções pequenas e conflitantes. > [!note] Note A tecnologia é segura, eles tendem a pensar, facilmente guiada e controlada pela indústria e pelo governo. Mas a ciência pura, a ciência pela ciência, a ciência enquanto curiosidade, a ciência que pode levar a qualquer lugar e desafiar qualquer coisa, essa é outra história. > [!note] Note os poderes sem precedentes que a ciência agora torna possíveis devem ser acompanhados por níveis sem precedentes de atenção e interesse éticos por parte da comunidade científica— bem como pela educação pública mais abrangente no que diz respeito à importância da ciência e da democracia. ## 25. Os verdadeiros patriotas fazem perguntas > [!note] Note É UM FATO DA VIDA em nosso pequeno planeta sitiado que a tortura disseminada, a fome e a irresponsabilidade criminosa das autoridades sejam mais prováveis nos governos tirânicos do que nos democráticos. Por quê? Porque é muito menos provável que os governantes dos primeiros sejam depostos por seus malefícios do que os governantes dos últimos. Esse é o mecanismo de correção de erros na política. > [!note] Note Em quase todos esses casos, não se fazem experimentos de controle adequados, nem as variáveis são suficientemente isoladas. Ainda assim, até certo grau, com freqüência útil, as idéias políticas podem ser testadas. O grande desperdício seria ignorar os resultados dos experimentos sociais por parecerem ideologicamente intragáveis. > [!note] Note Até um exame casual da história revela que nós, humanos, temos uma tendência triste de cometer os mesmos erros mais de uma vez. Temos medo de estranhos ou de qualquer pessoa que seja um pouco diferente de nós. Quando ficamos com medo, começamos a maltratar as pessoas. > [!note] Note Jefferson ensinou que todo governo degenera, quando fica entregue apenas aos governantes, porque estes— pelo próprio ato de governar— abusam da confiança pública. O próprio povo, dizia ele, é o único depositário prudente do poder. > [!note] Note Essa me parece ser uma ideia curiosa. Parece que grandes líderes políticos simplesmente não deveriam existir > [!note] Note Mas ele se preocupava com o fato de que o povo— e a afirmação remonta a Tucídides e Aristóteles— é facilmente enganado. Por isso, defendia salvaguardas, políticas de segurança. Uma delas era a separação constitucional dos poderes; assim, vários grupos, alguns buscando satisfazer seus próprios interesses egoístas, se equilibram reciprocamente, impedindo que um deles saqueie o país: o Executivo, o Legislativo e o Judiciário; a Câmara e o Senado; os estados e o governo federal. > [!note] Note Uma das razões para a Constituição ser um documento ousado e corajoso é que ela permite mudança contínua, até da própria forma de governo, se assim desejar o povo. > [!note] Note Em seu famoso livrinho On liberty, o filósofo inglês John Stuart Mill afirmava que silenciar uma opinião é “um mal peculiar”. Se a opinião é correta, somos roubados da “oportunidade de trocar o erro pela verdade”; e, se está errada, somos privados de uma compreensão mais profunda da verdade em “sua colisão com o erro”. Se conhecemos apenas o nosso lado da argumentação, mal sabemos sequer esse pouco; ele se torna desgastado, logo aprendido de cor, não testado, uma verdade pálida e sem vida. > [!note] Note As novas idéias, a invenção e a criatividade em geral sempre estão na vanguarda da promoção de um tipo de liberdade— um desvencilhar- se das restrições claudicantes. A liberdade é um pré- requisito para continuar a delicada experiência da ciência— tendo sido uma das razões pelas quais a União Soviética não pôde continuar sendo um Estado totalitário e tecnologicamente competitivo. Ao mesmo tempo, a ciência— ou melhor, a sua delicada mistura de abertura e ceticismo, e o seu estímulo à diversidade e ao debate— é um pré- requisito para continuar a delicada experiência da liberdade numa sociedade industrial e altamente tecnológica. > [!note] Note Conhecer o valor da liberdade de expressão e das outras liberdades garantidas pela Declaração de Direitos, saber o que acontece quando não temos esses direitos e aprender a exercê- los e protegê- los deveria ser um pré- requisito essencial para ser cidadão norte- americano— ou, na verdade, cidadão de qualquer nação, ainda mais se esses direitos continuam desprotegidos. Se não podemos pensar por nós mesmos, se não estamos dispostos a questionar a autoridade, somos apenas massa de manobra nas mãos daqueles que detêm o poder. Mas, se os cidadãos são educados e formam as suas próprias opiniões, aqueles que detêm o poder trabalham para nós. Em todo país, deveríamos ensinar às nossas crianças o método científico e as razões para uma Declaração de Direitos. No mundo assombrado por demônios que habitamos em virtude de sermos humanos, talvez seja apenas isso o que se interpõe entre nós e a escuridão circundante.